por Salomão Gladstone
MOÇA FAZ MAL A CACHORRO
— Quem mandou você se meter onde não é chamado, Superpluteta? — disse Esther. — Isto aqui é assunto entre mim e o desprezível Ronald.
— Ah, é, é? O Ronald pode ser desprezível, mas eu ainda tenho que arrancar uma nota preta dele.
— Hein? — espantou-se Ronald.
— Sim, seu patinho fedorento! Eu tenho em cativeiro os seus três queridos sobrinhos…
Ronald ficou de penas em pé. Superpluteta prosseguiu:
— Na verdade, eu sempre estive por trás de todo o plano de seqüestro. O falecido Professor Urubu só fez o trabalho sujo. Meu único problema era cobrar o resgate quando ninguém sabia o destino da grana do Petinhas e eu não tinha como usar meus “meios de pressão” regulares…
Para ressaltar a importância de seus poderes, Superpluteta arrancou do chão, com uma mão só, uma fileira inteira de poltronas. Com a facilidade de quem brinca com uma bolinha de papel, atirou as poltronas pelo teto, fazendo grande estrondo.
— E como você recuperou seus poderes?
— Sei lá. Só sei que eu estava na cadeia, vi um grande clarão…
Esther entendeu tudo. Era mais um efeito da Moedinha da Sorte.
— …E me transformei de volta em Superpluteta sem engolir nenhum amendoim mágico. Melhor ainda, até agora o efeito da transformação não passou! Tanto melhor: os amendoins mágicos têm um gosto horrível…
por Salomão Gladstone
GATILHOS RÁPIDOS
— Raios! Errei por pouco! — lamentou Esther, ainda com os braços rígidos segurando a arma fumegante.
— Mas eu acertei na mosca, digo, na pata… Rê, rê, rê! Bem que algo me dizia que eu não podia confiar na mira de uma mulher humana…
— Fatalôncio! Eu pensei que você quisesse matar o Ronald, não a Flora Senteantes.
— Águas passadas, Esther. Considerando os fatos novos da disputa de poder em Pastópolis, Ronald vale mais vivo do que morto.
— É duro admitir, Fatalôncio, mas obrigado pelo grande favor — disse Ronald. — Pelo menos não teremos nenhuma velhota esclerosada dizendo ser a única legítima herdeira da bufunfa de Petinhas…
Esther voltou-se para o acuado Omar Suíno.
— E então, excelência? Como autoridade suprema de Pastópolis, não vai dar voz de prisão a Fatalôncio?
— Quem, eu? Flora Senteantes nem era cidadã pastopolense…
— Chega de conversa fiada, seus moleques! — grasnou Sovina McGrana. — Nós estamos aqui para decidir o destino de nossa existência e vocês ficam se preocupando com mesquinharias de herança?
por Salomão Gladstone
TEATRO DE OPERAÇÕES
— Veja só quem temos aqui… A brilhante Esther, neste caso, literalmente brilhante… O que aconteceu com você, menina? Engoliu uns vaga-lumes? Rá, rá, rá!
— Pato Ronald, seu pulha! Se você realmente sentisse o drama, não estaria dando uma de engraçadinho numa hora tão imprópria… Como é que você vai manter essa grana toda sem os poderes da Moedinha da Sorte do seu tio?
— Nem pense em me impressionar com as superstições do velho muquirana… Aaaaaaaaaaaaargh!
Com um leve supersopro mágico, Esther atirou Ronald contra o monte de sacos de dinheiro. Apavorados com o suposto milagre, os guardas de Omar Suíno saíram correndo. Os Patralhas avançaram e se posicionaram em formação de combate.
— Viu só? Da mesma forma que fiz isto, posso usar os poderes da Moedinha para transformar toda a sua fortuna em pó de traque.
— Pelo menos por enquanto. Humanas mortas não fazem truques!
Dito isso, Ronald sacou do bolso de trás uma legítima pistola do mundo dos humanos, a única arma que poderia ferir Esther.
por Salomão Gladstone
A HORA DA VERDADE
— Há algo errado aí! — grasnou Fatalôncio ao ver Superbicudo desmascarado — Ou você não é o Pato Ronald coisa nenhuma, ou você é o Ronald se fazendo passar por Superbicudo!
— Nada disso, seu velho corrupto. Eu sou o Ronald mesmo, e sempre fui o Superbicudo. Não contavam com minha astúcia…
— Você é um pato morto, Ronald! Eu vou arrancar suas penas, uma por… Aaaaaargh!
Com um tiro certeiro de sua pistola de raios, Ronald (digo, Superbicudo) pôs Fatalôncio a nocaute. Em seguida, acionou suas botas com molas e saltou ao palco, onde encontrou um Omar Suíno mais assustado que qualquer pessoa do auditório.
— Como é, excelência? Quem vai levar as terras dos cães caucasianos?
— E eu vou lá saber se você está blefando, Ronald?
— Quer saber mesmo? Lá vai bomba, Omar!
Dito isto, um enorme saco de dinheiro despencou sobre a cabeça do prefeito de Pastópolis como um piano que cai do vigésimo andar. Sem saber se Omar Suíno sobrevivera à pancada, Ronald deu outro hiper-salto para o lado, abrindo espaço para a queda de centenas e centenas de sacos sobre o palco. Sovina ainda tentava acordar Fatalôncio. Ao ver a chuva de dinheiro, Sovina é que precisou de cuidados médicos.
por Salomão Gladstone
BATENDO O MARTELO
Os corpos carbonizados e sem identificação de Vagarida, Fantasma Manchado e Professor Urubu foram removidos rapidamente e desapareceram nas gavetas do IML de Pastópolis. Como de costume, os jornais não disseram uma palavra sobre a tragédia. Mas Fatalôncio parecia saber de tudo naquela cidade. Ele sabia que Muckey tinha sido morto por Pluteta, a quem nem todo o dinheiro do mundo salvaria do pelotão de fuzilamento. Ele conhecia as mãos sujas que mantinham os sobrinhos de Ronald no cativeiro. Mas achava que sabia que tinha mandado para os ares o dinheiro de Petinhas e que seu pacto com Sovina MacGrana seria um completo sucesso.
E foi com essa confiança que Fatalôncio e Sovina participaram de uma assembléia muito especial no luxuoso Teatro Cordélio Flatus: fechando o processo de emancipação dos cães caucasianos, o prefeito-ditador faria o leilão das terras históricas tomadas ilegalmente dos cães caucasianos. Mas a alta sociedade local era mera figurante no leilão: quem mais, além de Fatalôncio e Sovina, poderia dispor de tanto dinheiro em Pastópolis?
*****
Estava com muito medo. Não tinha a menor idéia do que Esther tramava com os Patralhas, a não ser que ela engoliu uma maldita moedinha, derrotou Begônia Beagle e passou a ser tratada como semideusa. Pois os Patralhas, como todos os cães caucasianos, receberam anistia; Petinhas, o velho inimigo dos Patralhas, estava morto e enterrado, e sua fortuna tinha virado fumaça atômica. Então, por que é que os sobreviventes do bando precisavam se armar até os dentes e usar um comboio de carros blindados para voltar ao centro de Pastópolis? E o que fazíamos eu e Esther nessa nova megaoperação?
por Salomão Gladstone
CRIME E CASTIGO
Dez dias se passaram. Descontada a indignação dos ecologistas com a explosão da ilha onde estava a Caixa-forte — que julgavam ser um “simples” teste nuclear do governo de exceção de Omar Suíno — o ambiente era cada vez mais calmo em Pastópolis. Ninguém soube de coisa alguma sobre a morte de Muckey (consta que Winie recebeu uma quantia polpuda para desistir de procurar seu noivo) e a prisão de Pluteta era dada como boato até pelos mais esclarecidos. Os cães caucasianos começaram uma campanha — totalmente legal — de arrecadação de donativos pela reconstrução de Cinópolis, sua cidade sagrada. Pouco a pouco, mesmo os austeros patões de bico largo começavam a ver com melhores olhos aquela nova movimentação política, e alguns até arriscavam jogar uma moeda na sacolinha dos cães.
A guarda do cativeiro de Dinho, Binho e Quinho foi confiada pelo Professor Urubu a Kid Abo e Little Ted — o que já caracterizava uma alta traição a Fatalôncio, inimigo da organização criminosa a que pertenciam. Mesmo sabendo do risco que corria, Urubu tinha que ir a Passarópolis selar com sangue seu pacto com o chefão da máfia. Urubu não se abalou: a polícia ainda não tinha motivos sérios para procurá-lo e seu passaporte permanecia válido.
No aeroporto de Pastópolis, enquanto esperava na fila do check-in, Urubu pensava na fortuna que renderiam suas transações com a nova organização. Uns megabilhõezinhos que despertariam risadas em Fatalôncio ou Sovina Mac Grana, mas uma quantia bem superior aos pequenos golpes dos quais sobrevivera por tantas décadas.
— Nada pode dar errado… Nada pode dar errado…
Os gentis funcionários da Pastópolis Airlines providenciaram o despacho da bagagem — uma coleção de armas pesadas e munição, que a alfândega de Passarópolis não conferiria nunca — carimbaram o passaporte de Urubu e apontaram o caminho para o portão de embarque. Urubu alargou os passos e acabou dando um esbarrão com um cão caucasiano, acompanhado de uma pata de peruca desalinhada, que vinha em sentido contrário.
— Ei, olhe por onde anda, seu…
Urubu não demorou a identificar o sujeito:
— Fantasma Manchado, seu traidor desgraçado!
— Sujou! O Urubu me descobriu!
Vagarida, com um disfarce ainda mais ridículo que o da viagem ferroviária, foi puxada por Fantasma Manchado para fora do aeroporto, onde uma limusine já os esperava. Urubu tirou uma submetralhadora de sua valise, correu atrás da dupla e pegou um táxi para persegui-los. De pé no banco da frente, abrindo fogo através do teto solar, Urubu transformava a limusine de Fantasma num queijo suíço, mas o carro não parava. Já perto do centro de Pastópolis, o motorista de Fantasma, com extrema habilidade, deu um cavalo de pau, atravessou o carro na pista e disparou os assentos ejetáveis, lançando a si e aos dois passageiros a uma distância razoável. O táxi não teve tempo de se desviar e entrou a 140 quilômetros por hora no meio da limusine, fazendo explodir os dois carros.
por Salomão Gladstone
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM
— Vamos embora daqui, Pluteta — disse Muckey. — A barra sujou legal para nós. Temos que fugir de Pastópolis por um bom tempo!
— “Temos?” Quem está sujo é você. Não tenho culpa de nada, e não sou eu que fico desfilando em Pastópolis com carteirinha da Polícia.
— Você não é besta de abandonar o barco agora. Vamos embora agora mesmo, e ponto final.
— Muckey, quantas vezes tenho que repetir que não sou a metade do palerma que você imagina? Sempre fiz vista grossa para todas as falcatruas e nunca levei um centavo por isso. Agora não me peça para dividir os prejuízos.
Furioso, Muckey apontou sua arma para a testa de Pluteta e gritou:
— Tire essa bunda fedorenta desse sofá agora mesmo e vamos para Grasnópolis! É uma ordem!
— Muckey, você não seria capaz de…
— Vamos andando, já!
Silêncio profundo. Pluteta, acuado, ergueu as mãos e andou dois passos para trás. Muckey não mexeu um músculo.
— Tudo bem, Muckey, vamos a Grasnópolis. Primeiro preciso ir ao banheiro.
Mantido sob a mira da pistola de Muckey, Pluteta abriu o esconderijo de sua proibidíssima privada: era preciso arrastar uma velha e pesada estante no centro da sala para tirar uma tábua solta do assoalho e erguer o diminuto vaso sanitário fabricado no quaquilionário conglomerado industrial de Fatalôncio. Muckey não desviou o olhar nem por um segundo. Enquanto abaixava as calças, Pluteta alcançou no chão, ao lado do vaso, o pote de vidro que continha seu maior tesouro: os últimos amendoins mágicos.
— Quer um amendoim, Muckey?
— Como é que você pode pensar em comida numa situação dessas?
Pluteta engoliu, inteiro, um amendoim. Um milissegundo depois, voltou a ser o Superpluteta. Muckey quase caiu de costas.
— Pluteta… Então você é o…
— Sim, Muckey. Agora virou o jogo entre nós, pois não?
— Tome isto, seu canalha!
Muckey atirou, atirou e atirou no peito de Superpluteta, até gastar toda sua munição. Nenhum resultado. Tomado pelo pavor, Muckey jogou a arma no chão e saiu correndo. Inútil: Superpluteta voou à porta da casa e conseguiu agarrar Muckey pelas orelhas.
Foi a última coisa de que Muckey se lembrou antes de levar um supersoco no queixo e acordar no banco de trás do calhambeque de Pluteta, amarrado, amordaçado e com os pés presos num bloco de concreto. O velho rato grunhiu em pânico quando Pluteta parou o carro no meio da ponte da Baía de Pastópolis.
— Fim da linha. Desculpe, Muckey, mas doeu mais em mim do que em você. Eu sabia que a máfia me mataria logo que chegássemos a Grasnópolis, o efeito do amendoim mágico não duraria mais de meia hora e você não vai sobreviver para entregar o segredo da origem da superforça…
Pluteta tirou a mordaça de Muckey.
— Você não pode fazer isto comigo! Eu sou o rato número 1 de Pastópolis! O ídolo da multidão! O paladino da verdade e da justiça! O que será de Pastópolis sem mim?
— Nada pior que a bagunça em que está agora…Mas vamos ao que interessa. Onde está a grana?
— Hein?
— Grana. Tutu, money, argent. Não há outra explicação. Por que outro motivo você estaria enfiado até o pescoço nesse mar de lama?
— Não recebi um centavo, Pluteta. Acredite.
— Nem para manter presos ilegalmente os dois humanos invasores?
— Não sei do que você está falando!
Pluteta carregou Muckey em seu ombro, preparando-se para jogá-lo ponte abaixo.
— E ainda por cima é mentiroso! Qual é a relação entre a prisão dos humanos e a negociata dos sanitários? O que isso tem a ver com o suicídio do Coronel Contra? Quanto você recebeu do Fatalôncio?
— Você não está fazendo essas perguntas tarde demais, Pluteta?
— Eu quero respostas. Afinal, você não vai usar seu dinheirinho quando estiver ancorado no fundo da Baía de Pastópolis…
Muckey, por cima da cerca enferrujada, viu o reflexo da lua nas águas salgadas da Baía. Seu destino final não poderia ser tão inglório.
— Você não está falando sério quando diz que vai me jogar lá embaixo.
— Por que não? E ser otário a vida inteira, eu posso? Diga logo onde está o dinheiro.
— É uma pena, mas você vai se dar mal.
— Diga logo, seu rato pentelho! — gritou Pluteta.
— Você passou por uma lavagem cerebral. Só pode ser. Você é meu amigo e vai superar essa fase.
— Está no cofre? No banco? Na conta da Winie?
— Você me solta, leva cinco por cento e eu prometo nunca mais incomodar. Juro!
— Ora, vá pro inferno, seu… O que é isso?
Cinco viaturas da Polícia frearam ruidosamente em torno do carro de Pluteta. Com o susto, Pluteta acabou empurrando Muckey ponte abaixo. Foi apenas o tempo de apontar um holofote para um Pluteta já acuado e ouvir o “tchibum” do concreto afundando na Baía de Pastópolis.
por Salomão Gladstone
QUEIMA DE FOGOS
Não apenas Muckey e Pluteta assistiam ao telejornal.
— Sovina, nosso plano é um sucesso. Visto de longe, o patandróide do Ronald, vestido e maquiado, é igualzinho à Vagarida. Agora todos acreditam que Ronald simulou o acidente na Floresta Negra para seqüestrar os próprios sobrinhos com a ajuda da Vagarida… e chantagear o resto da família, claro.
— Família Pato… Aquele bando de boçais não pode superar talento, criatividade e uma pilha de dinheiro muito maior que a deles. Bom trabalho, Fatalôncio. Quando fechamos o negócio?
— Assim que eu lhe conceder o imenso prazer de apertar o botão, explodir a Caixa-forte e mandar o Ronald pros quintos dos infernos.
por Salomão Gladstone
A LISTA CHEIA DE BICHOS
Superbicudo transpirava perplexidade. Numa base secreta plantada no fundo do oceano, ele tinha diante de si Flora Senteantes e todo o primeiro escalão sobrevivente da Família Pato.
— Agora todo o dinheiro de Petinhas — disse Odorico — está seguramente depositado aqui nas profundezas, longe dos olhos curiosos e protegido por tubarões assassinos.
— Isso é uma loucura. Como assim vocês aproveitam uma distração dos Patralhas, abrem o fundo da Caixa-forte e roubam todo o dinheiro?
— Roubamos, uma vírgula. A herança de Petinhas O’Pato nos pertence de fato! Era o único jeito de salvarmos tudo o que é nosso, pois a qualquer momento o Fatalôncio pode apertar um botão e varrer a ilha do mapa.
Superbicudo raciocinou:
— Bem, eu não duvido que o Fatalôncio seja capaz disso. O difícil é descobrir qualquer segredo da máfia que envolve aquelas empresas.
por Salomão Gladstone
A NOVA ORDEM DE PASTÓPOLIS
— Corra, Superbicudo! — disse Flora Senteantes — Entre aqui se quiser salvar sua vida! Não temos tempo a perder!
“Ainda bem que não fui reconhecido”, pensou, como de costume, o Ronald sob a máscara de Superbicudo.
— Mas do que a senhora está falando?
— Fatalôncio vai mandar a ilha inteira para os ares!
Nisso, Flora pisou fundo no acelerador, quase jogando Superbicudo para trás.
*****
— M-m-mas, Fantasma Manchado, você era a última pessoa que eu esperava encontrar em Grasnópolis…
— Exato, Vagarida. Quando a justiça de Pastópolis inventou para mim uma pena de 830 anos, deixei um substituto na prisão e vim para esta cidade divina cuidar de meus negócios. Tanto melhor. Nem preciso usar esta capa preta e sou conhecido apenas como um empresário respeitável…
por Salomão Gladstone
PATOS NO BURACO
O ferido Sovina Mac Grana desmaiou no meio do caminho quando era levado à mansão de Fatalôncio, nos arredores de Pastópolis.
— Felizmente o senhor foi resgatado a tempo, Sovina — disse o médico particular de Fatalôncio — Não sei o que seria do senhor com uma bala alojada na perna por mais horas.
— Ora, deixe pra lá. Eu tenho que voltar imediatamente à África do Sul e cuidar de meus negócios.
— Ainda não. O senhor precisa de repouso.
Fatalôncio surgiu à porta:
— E depois, eu prefiro que você se estabeleça de vez em Pastópolis. Sem os Patralhas nem a família Pato para atrapalhar, a cidade será toda nossa!
— Fatalôncio, seu sem-vergonha!!!! Como um ordinário como você tem a ousadia de dirigir a palavra a…
— Calminha, Sovina… Temos nossas diferenças pessoais, mas você não está em condições físicas de ter ataques de nervos. E sei que não foi desse jeito que Mamãe Mac Grana lhe ensinou a agradecer os favores dos outros…
por Salomão Gladstone
QUADRILIONÁRIOS UNIDOS
Os sobrinhos de Ronald saíram sem grandes ferimentos depois da queda do avião. Binho e Quinho carregavam seu irmão pelos braços e pernas. Perdidos no meio da floresta, eles tinham que procurar ajuda, já que o rádio do avião não funcionava.
De repente os patinhos ouviram passos e uma voz rouca. Quando notaram quem era, se esconderam atrás de uma moita. Era Professor Urubu falando num telefone sem fio.
— Fatalôncio? Tudo pronto. Quando quiser disparar o míssil, basta pressionar o botão azul na sua escrivaninha… Como? Rolando fatos novos em Pastópolis? Que fatos novos? Anistia? Não estou entendendo, Fatalôncio. Está bem. Meia hora.
— Manos, aí tem coisa… — cochichou Binho — Vamos seguir as pegadas do Urubu e ver de onde ele saiu.
O cientista do mal seguiu em frente e encontrou o avião destruído. Pé ante pé, suspeitando de alguma armadilha, ele entrou e examinou as pistas:
por Salomão Gladstone
AINDA QUE TARDIA
— Faça suas últimas orações, Begônia Beagle. Chegou o seu fim!
Diante da ameaça, os Patralhas recuaram e se esconderam atrás das moitas. Begônia ainda estava caída, sentindo os efeitos do golpe mágico.
— Nunca, sua humana desgraçada! Ri melhor quem ri por último!
Begônia, discretamente, apontou para o céu e deu voltinhas com o indicador direito enquanto murmurava palavras mágicas numa língua estranha. Os Patralhas se encolheram ainda mais. Mal percebi o que nos esperava.
Uma chuva de raios caiu aos pés de Esther. A força da seqüência de golpes lançou a humana a dez metros. Esther saiu cambaleante, com um lado do corpo gravemente queimado. Qualquer humano normal estaria morto, mas ela sequer perdera a consciência. Emanando um brilho intenso, seu corpo se recompôs dos ferimentos em poucos segundos. E nisso Esther não percebeu que Begônia reapareceu às suas costas.
— Tome mais isto, Esther!
Begônia estendeu as mãos para frente e soltou um jorro de bolas de fogo. Esther caiu novamente. Controlando a dor, ela rastejou e lançou um olhar fuzilante para Begônia.
— Não admito ataque pelas costas!
Esther abriu a boca, emitiu a luz ofuscante e soprou com a força de um furacão. Begônia foi lançada aos ares. Num grito lancinante, o fantasma se desfez nas nuvens — para nunca mais.
por Salomão Gladstone
MATO SEM CACHORRO
— Controlem o avião! Vamos nos espatifar na montanha!
Os sobrinhos de Ronald estavam desesperados. Nenhum capítulo do Guia do Campista Júnior explicava como funcionava o avião. O rádio não dava resposta. Binho, alucinado, começou a apertar todos os botões do painel em busca de algum efeito positivo. Nada.
— Quinho, está encontrando algum pára-quedas?
— Que pára-quedas o quê?
Já era tarde demais. A asa esquerda se chocou com o rochedo; o avião rodopiou no ar e despencou no coração da Floresta Negra.
*****
Vagarida não parecia se dar conta que o Expresso Bicanca era a linha mais sórdida e decadente do sistema ferroviário. Desde que os aviões dominaram o transporte entre Pastópolis e Grasnópolis, a viagem nos velhos trens ficou restrita aos muito pobres, a um punhado de nostálgicos amantes dos trilhos, e a todo tipo de punguistas, prostitutas, falsários, vigaristas e picaretas em geral.
por Salomão Gladstone
LODO, CAOS E ESBÓRNIA
— Omar Suíno! — espantou-se Muckey — Onde o senhor esteve?
— É uma longa história. Eu tinha que tirar umas férias em Grasnópolis.
— Mas todos viram a cena do seqüestro — disse Coronel Contra — Toda a polícia estava à sua procura.
— Eu tinha que inventar algum pretexto. A confusão gerada com a morte do Petinhas me abalou profundamente…
Muckey e Contra se entreolharam, desconfiando de alguma coisa no discurso. Omar continuou:
— Nestes dias conversei com uns amigos de Grasnópolis que estão muito preocupados com a situação pastopolense. Eles me convenceram de que agora, sem o Petinhas, estou preparado para as reformas necessárias em Pastópolis…